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Paladar da Vida

Quando lês o texto incendeia-se na pele e acontecem pequenos sismos no olhar do riso: pulsões de um coração de papel. João Manuel de Oliveira Ribeiro in "Regras do mel e da flor"

Paladar da Vida

À procura de mim - parte I

Corri desenfreadamente até ao elevador, que permanecia ali à minha espera, como cúmplice da minha fuga perfeita. A porta fechou-se, automaticamente perdi a pose, que durante anos tornou-se uma amiga e um trunfo. Naquele minúsculo rectângulo metalizado, restava-me olhar os números que pacientemente esperavam o toque de alguém, a carícia fugaz de um dedo, que se fita-se o reflexo da mulher no espelho sentiria repugnância e um odeio profundo.

Durante a decida obriguei-me a permanecer imóvel, a lutar para que os meus olhos não vertessem nem mais uma lágrima. Batalha perdida. As imagens surgiram em turbilhão dentro da minha cabeça e aqueles sentimentos que tanto evitei apoderaram-se de mim, abateu-se sobre mim um desejo feroz de maltratar e maldizer aquela mulher que estava no espelho.

Uma coragem  inesperada brotou das minhas entranhas e encarei-a olhos nos olhos. Gostei do que vi. Estava medonha, como ela merecia estar. As roupas sofisticas e elegantes que usava em contraste com a cara esborratada, tornava-a numa figura excêntrica, saída de um filme de animação de terror. Ri-me dela.

A mulher do espelho conseguiu a proeza de ter a minha compaixão ao mesmo tempo que a odiava. Tenho um desprezo enorme por aquela pessoa. Interrompi este estado de alma com a chegada do elevador ao piso térreo. Não havia sinal de vivalma no pátio de entrada, nem ao longo da rua. As pessoas que se encontravam dentro dos carros, no seu regresso a casa após o trabalho, não contavam. Iam em piloto automático e ofuscadas com os encargos que ainda tinham de cumprir até adormecer. Certamente, não reparariam em mim, perdida nos meus sentimentos. Estes estavam incontrolavelmente perdidos para sempre, mas o meu corpo tinha um rumo. Após caminhar mais durante 15 minutos, cheguei ao meu destino, um parque infantil deserto. Às 22h25 numa noite de Outono seria muito difícil encontrar ali crianças a dar asas às suas brincadeiras.

Sentei-me num dos balouços... 

 

 

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